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 RIBEIRO COUTO

        Rui Ribeiro Couto (Santos, São Paulo, 12.03.1898 - Paris, França, 30.05.1963). Foi poeta, contista, romancista, jornalista, magistrado e diplomata.

        Dos documentos que pertenceram ao escritor, estão depositados na Fundação Casa de
Rui Barbosa parte de sua biblioteca e o seu extenso arquivo particular, constituído por fotografias, manuscritos e volumosa coleção de cartas.

        Dentre os seus correspondentes, estão Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Oswaldo de Andrade, Rodrigo Melo Franco, Austregésilo de Ataíde, Paulo Rónai, Vinícius de Morais, Murilo Mendes, Dante Milano, Sérgio Milliet, Murilo Miranda, Manuel Bandeira e Guimarães Rosa, entre outros intelectuais de destaque de sua geração.

        Para acessar biografia e bibliografia de Ribeiro Couto, clique aqui.


Revista - MAGIS CULTURA MINEIRA (março de 2009). Leia a reportagem completa aqui.


 

Conversas de vida inteira de Ribeiro Couto e Bandeira

        ... Durante os anos 20 do século passado, no auge do movimento modernista, Ribeiro Couto viveu a maior parte do tempo em várias cidades do interior de Minas e São Paulo, onde exerceu os cargos de delegado de polícia e promotor público. A distância motivou uma vasta correspondência entre os poetas, que se encontra na Fundação Casa de Rui Barbosa. Foi reunida por mim, em volume ainda inédito, cujo título - Pouso Alto, o nome de uma dessas cidades - é glosado por Bandeira em uma das carta de 25 de agosto de 1925: ''Couto: Pouso Alto é um nome estupendo. Parece nome de ninho de águia. Pouso Alto. Absolutamente sereno. É um programa.'' 

        A correspondência endereçada a Couto foi mais bem preservada: são 170 cartas de Bandeira e somente 18 cartas de Couto, entre 1919 e abril de 1929. Durante esse período, inicia-se e consolida-se a carreira literária de Ribeiro Couto e foram escritos ou publicados os dois volumes mais expressivos da poesia de Manuel Bandeira: Poesias (com ''A cinza das horas'', ''Carnaval'' e ''Ritmo dissoluto''), em 1924, e Libertinagem, com poemas de 1924 a 1930, publicado em 1930 ...

Fonte: José Almino de Alencar (Pesquisador e presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa) link


Vemos também, na primeira carta enviada da Europa por Ribeiro Couto ao amigo e que finaliza a parte da correspondência tratada aqui. Dela, eu desentranhei à maneira de Manuel Bandeira, esse poeminha: 

"Ribeiro Couto tem sempre na alma o Brasil ou Pouso Alto.
Manuelzinho, não pretendo sair da Europa
antes de falar correntemente quatro idiomas
e de ter visto os principais países civilizados."

26 de dezembro de 1928.


Poeta foi revelado ao país que o ignorava por Ribeiro Couto


Vindo dificilmente à lembrança como um dos lugares onde sopra o espírito, a cidade de Pouso Alto teve, entretanto, o seu momento de glória obscura e ignorada com a reunião de três homens que, esses sim, deixariam a sua marca na poesia brasileira: "Uma das visitas de Manuel Bandeira a Ribeiro Couto resultaria no histórico encontro no início de 1926, que fez com que a 'casinha cor-de-rosa' de Pouso Alto entrasse para a história social da nossa literatura ... 

Jornal: Globo Autor: Wilson Martins 
Editoria: Prosa & Verso Tamanho: 980 palavras 
Edição: 1 Caderno: Prosa & Verso 

* A casa está situada na Avenida Haroldo Russano, n° 56 mas, não é mais cor-de-rosa, como se vê na foto acima. 


        Um outro episódio, em que Bandeira ignora uma sugestão de Ribeiro Couto, ilustra, pelo menos aos nossos olhos de leitores no futuro, a habilidade criteriosa do poeta ao selecionar os elementos que compõem um poema. Em 21 de setembro de 1925, Ribeiro Couto escreve de Pouso Alto os seguintes comentários:

O "Anjo da Guarda" tem um verso que quebra o poema: "Devia ter sido assim". Aquele verso - releia, serenamente [...] Nem compreendo como lhe acudiu! Não ajunta nada de notável ao sentido; e cai. O poema cai ali.

Tratava-se, no caso, de O Anjo da Guarda, escrito em memória à Maria Cândida de Souza Bandeira, irmã de Manuel Bandeira:
       O Anjo da Guarda
Quando minha irmã morreu,
Devia ter sido assim)
Um anjo moreno, violento e bom,
                                 - brasileiro

Veio ficar ao pé de mim.
O meu anjo da guarda sorriu
E voltou para junto do Senhor.
A observação é irritada, impaciente. A recomendação é enfática. E no entanto, a quebra introduzida pelo verso - uma sentença (reforçada pela presença de um parêntese) no pretérito imperfeito, em meio a uma narrativa toda ela no pretérito perfeito, vem a trazer um elemento de complexidade ao poema. Sem aquele verso, ele seria uma manifestação da resignação triste, tingida pelo humor melancólico de um irmão diante da morte da irmã. E não seria mau. Com ele, que traz uma conotação inconclusiva, uma nota de meditação e de irresignação, fica incluído, sem prejuízo dos outros significados, a idéia da perplexidade e de insubmissão do poeta face à morte.

O amor do detalhe, o olho para a pequeneza que transforma o sentido e empresta gozo e importância à "coisa sem importância mesmo" é a marca da poesia de Bandeira. Encanta-lhe surpreender e ser surpreendido nesses achados. Por exemplo, ao saber por Mário de Andrade que um maneirismo que lhe havia passado desapercebido tem um valor particularmente expressivo:
Comoveu-me a observação dos diminutivos. Depois que adoeci tudo que era meu ou para mim levava diminutivo da minha mãe: o leitinho de Nenê (era assim que me chamava), o copinho de Nenê, etc. Como vê, está no sangue. Concordo [...] com você, que a minha imaginação é fraca e convencional em concepção. Valho mais pela expressão.

            Durante a sua estadia no interior, Ribeiro Couto acumula as suas atividades como delegado de polícia ou promotor público com a prática de advogado da roça, da qual dá notícias periódicas a Manuel Bandeira:

Ontem, domingo gramei 4 léguas a cavalo, fui à 9 e voltei 3 da tarde, 2 de ida e 2 de volta, sendo que esta depois do almoço e de andar a pé subindo morros, para acertar uma divisa de caboclos teimosos. Ganhei 150$. Foi um serviço duro, porém era preciso ganhar. Deram-me também uma leitoa, fora o trato. Pouso Alto, 26 de setembro de 1927

Vou deixar a promotoria no dia 3, para pegar uma causa criminal em Silvestre Ferraz. Causa pequena, 2:500$000, mas que oferece a oportunidade ambicionada. Dá coragem. Tenho outros serviços encaminhados (lá mesmo e aqui), de modo que aproveito a hora para deixar de aturar um juiz municipal analfabeto, um escrivão criminal perobíssimo e um rábula (o Antoº dos Reis) infamérrimo. Pouso Alto, 22 de maio de 1928


Ribeiro Couto 
Costureirinha 

Costureirinha magra, de olhos curiosos, 
Que passas de manhã junto à minha janela, 
Como parece melancólica a tua vida ! 
O teu passo ligeiro faz-me pensar que andas sempre um pouco atrasada. 
Será que te demoras diante do espelho ? 
Será que és vaidosa, costureirinha ? 

Hoje passaste com um livro, a ler. 
Pela primeira vez ias devagar. 
Devia ser um romance; posso mesmo dizer de quem ... 

E fiquei a invejar Enrique Perez Escrich ... 

Um dia escreverei um romance bem lindo, 
Um romance bem dramático, bem a teu gosto, 
Para que se encham de lágrimas os teus olhos.


 

Manuel Bandeira

 

Estrela da manhã

 

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã ?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã


Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos

Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos


Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e os troianos
Com o padre e o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois pecai comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma
ternura tão simples
que tu desfalecerás
Procurem por toda a parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.



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